Matando sem querer

Pior do que saber que 115 pessoas foram assassinadas no primeiro trimestre de 2012 porque alguém quis matá-las, é descobrir que 73 pessoas morreram no mesmo período porque alguém cometeu uma irregularidade no trânsito e matou sem querer.

Neste caso, vale refletir: o carro, a moto ou o caminhão são armas. E uma destas armas subiu na calçada para fazer uma manobra proibida e matou uma criança de dois anos em São José dos Campos. Outra arma matou um senhor que lavava o carro no portão de sua casa em Caçapava.

Não adianta aumentar o número de horas-aula para dar a uma pessoa o direito de dirigir. Quem mata no trânsito, tem habilidade, mas tem preguiça de usar. Afinal, temos mais leis do que gente que fiscaliza se elas são cumpridas.

“Vira que não tem problema”, “pode ir que está livre”, “acelera que dá tempo”. Uma fração de segundo pode custar uma vida. E tem gente que prefere pagar para ver, afinal, no mundo moderno, quem quer perder tempo no sinal vermelho?

Notícias ao vento

Fiz um levantamento sobre notícias policiais recentes publicadas por OVALE nos últimos dois meses. Peço aos leitores do Mundo Cão que leiam e me ajudem na pergunta do final do Post.

18/4 – Gerente de farmácia é preso por morte de colega (O tiro foi disparado por um adolescente de 15 anos)

13/4 – Menor é detido por latrocínio em São José

12/4 – Polícia prende trio após roubo a posto (menor de 17 anos integrava o grupo)

17/3 – Menor executado era suspeito de matar PM

4/3 – Menor é recrutado para linha de frente do tráfico (texto aponta que menores são recrutados para cobrar dívidas do tráfico. Muitos casos terminam com a execução do endividado)

16/2 – Menores envolvidos na morte de dentista são detidos em São José

A minha dúvida diante destas notícias: Existe tiro que mata menos?

Os menores e a lei

Diante dos muitos crimes protagonizados por menores de idade nos últimos dias, os comentários dos leitores têm se multiplicado em nosso site. Todos indignados com a atual legislação que não permite que esses menores de idade sejam responsabilizados criminalmente pelos roubos, homicídios e ações de tráfico que cometem.

Salvo engano, eles podem, no máximo ficar detidos até 21 anos, em unidades como a Fundação Casa. Depois são colocados na rua. Com a ficha limpa. Eu acredito sim que todos os que erram merecem uma segunda chance.Mesmo assim, uma dúvida vem me incomodando em caráter permanente e se alguém puder me esclareça.

Por quê um jovem é considerado apto a escolher um governante a partir dos 16 anos, mas não é considerado capaz de decidir se é correto ou não tirar a vida de alguém e ser responsável por sua escolha?

Paixão sem limites

Quando o amor não tem limites, não demora para que extrapole as barreiras do ódio, possessão e autodestruição. O termo ‘tudo por amor’ ganhou força na literatura e em novelas por mostrar duas pessoas que apaixonadas, uma pela outra, não desistiram enquanto não conseguiram viver seu romance. Era bonito ver casais passando por dificuldades em busca da felicidade no amor.

Infelizmente, neste Mundo Cão, a definição é outra. E não faltam exemplos que ilustrem. Neste final de semana, foram dois casos diferentes: um em Piquete e outro em Jacareí. Em ambos, um homem que ama sem limites a mulher tenta matar alguém que obstrui a paixão possessiva.

Pior ainda, na semana passada, um policial civil de Minas Gerais viajou oito horas, de Belo Horizonte até São José dos Campos, para atirar contra a ex-mulher dentro de uma delegacia. Antes disso, ele já tinha ido até Apucarana, no Paraná, para o atentado.

Em 2011, o Brasil já ficou chocado com exemplos de amor possessivo na região. Ananias dos Santos, 28 anos,  matou duas adolescentes a sangue frio por ser rejeitado por uma delas. Em Cruzeiro, um ex-namorado matou ex-sogro, ex-sogra e ex-namorada a tiros. Uma semana depois, se matou em São Paulo.

O grande problema é que o amor sem limites só é saudável quando recíproco. Quando só uma pessoa ama, a tendência é que o amor não correspondido se transforme em violência. “Ela me ama, só preciso de uma chance”, como é costumeiro lermos na ficção, mas pode ser bem aplicado na vida real.

Qual a saída para esse grande mal que se tornou o amor exagerado? Em Caçapava, um homem colocou fogo na mulher após uma discussão por ciúmes. A mulher morreu dias depois devido aos ferimentos.

No país, apesar da Lei Maria da Penha, os crimes contra a mulher ainda são subestimados. Providências só são tomadas quando a mulher morre. Enquanto apanha em casa, ela prefere não denunciar e pouco fazem as autoridades. Nos casos de assassinatos (ou tentativas), não é comum a mulher já ter registrado Boletim de Ocorrência devido às ameaças sofridas e o agressor estar em liberdade, planejando cortar o mal pela raiz. “Se não vai ficar comigo, também não fica com mais ninguém”.

Mais do que uma simples ilusão, o amor sem limites pode se tornar doentio. E isso exige tratamento psicológico. Talvez seja hora de pensar políticas públicas voltadas para este tipo de problema, afinal, a violência está dentro de nós e pode ser despertada, até, pelo excesso de amor.

 

A polêmica do Cavaleiro das Trevas

O ‘Batman de Taubaté’ foi uma das notícias regionais de mais repercussão essa semana. Divulgada inicialmente pelo jornal Bom Dia, foi parar até nos sites de notícias nacionais.
O que me chamou atenção foi a reação das pessoas nos comentários na internet sobre a iniciativa da Polícia Militar da cidade de convidar o cosplayer Andre Pinheiro para apoiar as ações sociais que a corporação vem realizando na periferia como parte do Movimento pela Paz, integrado também por empresas – incluindo O VALE e o Bom Dia – e a sociedade civil.
Houve quem se divertisse, mas a reação mais comum aos comentários foi a indignação, desqualificando a iniciativa e o trabalho que André Pinheiro, numa atitude de cidadania ativa, aceitou fazer.
Estranho é que todos os que comentam têm receitas prontas sobre o que as autoridades devem fazer para solucionar a questão da violência. Fala-se em investimentos em segurança, educação e que a polícia atenha-se à função de manter a ordem pública.
Tudo isso está correto. Mas por que não louvar a ação de autoridades da PM e do homem que aceitou vestir sua fantasia de super-herói para despertar sonhos na cabeça de crianças que convivem com a dura realidade de um bairro como o Água Quente, em Taubaté?
Se eu não posso participar de ações sociais, por falta de tempo, disposição ou seja o que fôr, por que não parabenizar a quem se dispõe a fazê-lo?
Quando a PM prende delinquentes sobram brechas na legislação para devolvê-los às ruas e falta espaço em celas para mantê-los presos.
Taubaté tem um número absurdo de menores envolvidos em crimes, com o tráfico, detidos inúmeras vezes e liberados sob o cuidado de pais ou responsáveis para voltarem logo depois ao controle dos traficantes que os recrutam.
O que eu vejo nesse caso específico é a polícia indo além de suas obrigações e deveres numa tentativa quase desesperada de cumprir as funções que deveriam ser supridas por outros setores públicos. O Movimento pela Paz é a iniciativa mais positiva que eu pude perceber nos últimos tempos em Taubaté para fechar a tal ‘torneirinha’ de onde saem todos os dias os novos criminosos. Mostrando às crianças e famílias carentes e sem esperança que há sim luz no fim do túnel.
Parabéns à major Eliane Nikoluk por fazer o convite e ao Andre Pinheiro, por aceitar a missão doando o que um ser humano tem de mais precioso: tempo.
Se é pra fazer criança sorrir e esquecer por uns minutos a miséria que as cerca, que venha a Liga da Justiça.

A morte ao vivo

Me desculpem. Há tempos eu não atualizo o blog e confesso que é por falta de tempo, pois o que infelizmente não falta é assunto. Hoje, passo rapidamente por aqui só pra registrar minha indignação como cidadã,após ter novamente contato com uma das imagens que mais me chocou durante o exercício da profissão de jornalista, a despeito de tudo que já vi: a morte do dentista Paulo de Tarso, a tiros, por um ladrão, em um posto de gasolina de São José.

Claro que todos os dias morrem pessoas de forma violenta e todas essas mortes merecem nosso repúdio à violência. Mas essa, diante dos nossos olhos, gravada pelas câmeras de segurança do local, ficaram para mim como um símbolo da afronta a que a nossa liberdade de ir e vir é submetida todos os dias, diante da liberdade que os bandidos sentem para praticar crimes. A polícia agiu. O atirador foi preso. Os menores envolvidos detidos. Mas temos leis firmes o suficiente para garantir que eles não voltem às ruas para praticar novos atos como esse?

As pessoas que viraram números

Horror, apreensão, correria, gritos, tiros, bombas estourando, choro. O mundo cão tomou forma em todas as suas cores no Pinheirinho ontem pela manhã. Pegos de surpresa como a população do acampamento, apesar do intenso monitoramento de movimentos para a reintegração de posse ao longo de vários dias, os jornalistas foram chegando ao local e às redações.

A possibilidade da guerra no Pinheirinho pairava sobre São José já há vários dias, prenunciada pela batalha de decisões judiciais. E chegou. E as ações de forças policiais e reações de pessoas ligadas à causa, ou não, espalhadas pela zona sul da cidade foram sendo traduzidas em números que atualizamos a todo instante, ouvindo bombeiros, Polícia Rodoviária, acompanhando coletivas da Polícia Militar à frente da operação.

2.000 policiais, 18 detidos, 10 carros incendiados, 1 quilômetro de congestionamento na via Dutra interditada por manifestantes, 5.000 refeições a serem distribuídas às famílias nos abrigos improvisados, 1 fundhas queimada, 1 padaria saqueada e incendiada, uma escola queimada, 1 ferido grave, boato de 4 mortos que nenhuma autoridade confirmou, e assim passamos o dia. Esses números, é claro, mudaram muito ao longo de um domingo que custou demais a terminar.

O que não mudou foi o número pregado no peito do chefe de cada família retirada do acampamento. Uma senha. Com o objetivo de lhe dar direito a ser cadastrado para escolher um destino e à retirada de seus pertences dos barracos ou casas que ocupavam. A cena das filas de pessoas numeradas impressionou jornalista experiente. Será mesmo que a vida é bela?

O pipoco dos tiros assustou repórter mais jovem, que, já na redação me contou sobre seu medo, mas eu olhava para ela e só via coragem. Tinha ainda quem estava dando apoio à redação, mas só queria correr para o local do conflito, ver com seus próprios olhos as cenas de guerra em nome da lei. Do trabalho dos fotógrafos então nem se fala. Para conseguir as melhores imagens é difícil ficar fora da linha de tiro.

Houve fotógrafo que voltou mancando, repórter que sentiu o impacto de bala de borracha, outros com marca de queimadura de sol que vai levar dias para sair, mas tenho certeza que todos trouxeram em comum o orgulho do dever cumprido na profissão que escolheram e honram. Parabéns equipe O VALE/Bom Dia!

Por último, o último número que ouvimos do último repórter a retornar do campo de batalha à meia noite de domingo. 1 cão foi deixado para trás, amarrado no acampamento e latia muito em um lamento em busca de liberdade e ajuda, que, pelo menos ontem, sabemos que não chegou.

Vamos lá. Hoje tem mais!

O povo que ninguém quer

Não se trata de ser contra ou favor e muito pelo contrário. Mas um aspecto tem me chamado a atenção nessa história da reintegração de posse do Pinheirinho: ninguém quer essas pessoas por perto.
Muito coisa se comenta, aqui mesmo no site do jornal, ao pé das matérias, sobre os que lá estão brigando para permanecer.  Para alguns eles são aproveitadores que querem conseguir casa de forma fácil. Para outros, preguiçosos, para outros ainda, bandidos, e assim vai.
Para mim o que há de certo é que à esmagadora maioria das pessoas que formam aquela comunidade faltou oportunidade. De ir à escola, de ter emprego, de participar de um clube, comer bem, de se formar como cidadão consciente de seus direitos e deveres.
Agora, sitiados no espaço a que julgam ter direito, são ameaças à ordem pública e ameaçados em nome dela.
Os bairros vizinhos temem a chegada dos habitantes do Pinheirinho e protestam contra a instalação até mesmo de abrigos temporários para eles.
Os poderes públicos hesitam em assumir custos para resolver o problema, o poder econômico reivindica que lhe seja devolvida a posse da terra e a Justiça, que é cega, se atém a fazer valer o que prega a lei.O resultado: impasse.Como se chegou a esse ponto?
Pra onde irá esse povo, que tem entre eles uma notável quantidade de crianças – lindas, por sinal? O que estão elas aprendendo ao vivenciar todo esse conflito? Sem oportunidade, serão elas o embrião de futuros ‘pinheirinhos’?

 

 

O fim do ano e o fim do mundo

Ok. Eu queria estar aqui escrevendo sobre coisas boas. Mas já há muitos textos por aí sobre temas leves e promessas de renovação de vida, que, aliás, eu leio com muito prazer em busca de alento para as notícias que temos que encarar em nossa editoria.

Mas, ao encerrar o ano me sinto mais na obrigação de relembrar fatos e crimes que seria bom esquecer, mas que, uma vez ocorridos, não nos dão essa opção.

Para citar todos, só escrevendo um livro,infelizmente. Um dos mais emblemáticos, sem dúvida foi o assassinato das duas irmãs adolescentes em Cunha, no final de março. Meninas de 15 e 16 anos, sequestradas na volta da escola por um conhecido da família, que era morador da comunidade e foragido da justiça, após ser liberado para uma saída temporária e não retornar ao presídio. Não há o que comentar sobre isso.

Em julho, uma mulher de 79 anos saiu de casa às 7h da manhã para levar o lixo à rua e morreu. Atropelada.  Em cima da calçada por um motorista que perdeu o controle do carro. O responsável foi preso por homicídio doloso – quando há intenção de matar -, negou estar em alta velocidade e foi solto no final do mesmo dia.

E setembro, mais duas adolescentes, de 16 e 17 anos, desapareceram na saída da escola em Jacareí e foram encontradas mortas em Nazaré Paulista.

No final de novembro, uma menina de seis anos foi arrancada da mão da mãe ao descer da calçada, por uma moto em alta velocidade. Jogada longe, ela morreu na hora. O motociclista não foi localizado.

Em dezembro, um casal foi morto a tiros, dentro de casa, enquanto dormia na zona sul de São José. Essa é uma pequena amostra, trágica, do ano na área policial no Vale. Esses intervalos de meses foram recheados por muitos outros crimes, que mantiveram nossa região no topo do ranking da violência, no interior do Estado.

Não é que a polícia não tenha corrido atrás. As blitze da PM se multiplicaram, as investigações da Civil foram acirradas, centenas de quilos de drogas foram encontradas, casos foram resolvidos, mas ainda assim…

Criminosos não pouparam nem o Fórum de São José e roubaram de lá dezenas de armas . Caixas eletrônicos foram destruídos às dezenas pela região. O tráfico continuou sendo apontado pelas corporações policiais como a principal causa dos índices criminais e no final do ano, a Corregedoria da Secretaria de Segurança Pública pediu investigação sobre uma denúncia de ameaças de morte da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) a uma lista de policiais do Vale.

O ano muda de 2011 para 2012, mas os números que noticiaremos ao longo do novo ano serão novos de forma positiva para a segurança? É o que desejamos profundamente. Afinal, apesar das muitas datas marcadas para o fim do mundo, já há uma certeza: o mundo acaba todos os dias. Para quem morre.

Até 2012!

Eles não querem ajuda

“Quem disse que eu quero parar de usar crack?”. A frase foi dita por um usuário de crack de 16 anos para mim e para o repórter fotográfico Victor Moriyama.

Na ocasião, cobríamos uma denúncia de que usuários de crack invadiram o colégio Synésio Martins, no Centro de São José. Quando a Polícia Militar entrou no local, havia indícios, mas não havia ninguém no local. Assim que as viaturas saíram do prédio, apareceu o menor, que chamaremos de A. (nome fictício).

Ele se apresentou e disse que por R$ 5, poderíamos fazer fotos dele consumindo crack. Houve uma negativa. Dissemos que não podíamos contribuir para o vício dele e nossa intenção era fazer uma matéria mostrando a dificuldade dos dependentes químicos em deixar o vício do crack.

- Quem disse que eu quero deixar? Vivo bem assim.

Argumentamos que ele era novo e a droga o destruiria rápido (o crack faz com que a pessoa perca o apetite e ganhe feições cadavéricas). Mas A. estava irredutível. Explicou que pedia dinheiro na rua e, quando acumulava dinheiro, saía para comprar a droga.

Começou a frequentar o Synésio Martins há um mês. Os dependentes arrebentaram as trancas do imóvel abandonado. O local era usado durante a tarde, pois à noite, não há iluminação. Na hora de dormir, ele ia para algum viaduto.

Não é incomum ouvir opiniões como a do jovem A. nas conhecidas cracolândias, que vêm ganhando espaço em São José. Após viciar no crack, os dependentes invadem imóveis abandonados em busca de um teto para dormir e usar crack. Durante o dia, saem para a rua para pedir dinheiro e comprar mais drogas. A higiene é relegada a segundo plano.

Recentemente, O VALE publicou uma matéria em que citava uma economista que usou crack pela primeira vez ao perder o emprego em uma multinacional. A dependência veio imediatamente. Ela disse que às vezes pensa em se tratar, mas ao mesmo tempo, diz que nunca teve sensação tão boa quanto a “loucura da pedra”.

Repórter não opina, ele questiona. Por isso, aqui vai a minha dúvida: o que pode e o que está sendo feito para evitar que gente como A. troque o mundo real pelo universo criado pela “loucura da pedra”?